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BH, 14/02/2020

BH, 14/02/2020

 

Caros colegas,

dando sequência à série das resenhas dos escritos publicados pelo Aleph gostaríamos de afirmar que a série é um convite aos membros e participantes inscritos para escreverem resenhas de textos onde se localiza, nas publicações do Aleph, a pesquisa da XXV Jornada do Aleph: A sombra do trauma e a identificação”

 

Compartilhamos agora a resenha de Mauro Cordeiro a partir do texto: “Falo e identificação: fragmentos da clínica de Freud.”

Abçs. 

 

Comissão da XXV Jornada do Aleph – Escola de Psicanálise

 

 

 

Sobre o texto “Falo e identificação: fragmentos da clínica de Freud”, de Ana Maria Portugal; Elisa Arreguy Maia; Graça Curi; Jeanne D’Arc Carvalho; Lícia Mara Dias; Tânia Ferreira. Publicado em TRANSFINITOS n° 01 (2000)

 

Há pouco mais de vinte anos, algumas colegas fizeram a experiência de um cartel que produziu um texto extraordinário  – no sentido de não ordinário, supondo que o  que se transmite, na psicanálise, seja um fora de série dessa ordem. 

 

Se lêssemos o texto sem conhecer o seu  título, poderíamos imaginá-lo com uma gama não pequena de possibilidades, com variadas outras palavras.

 

Mas trata-se de um texto sobre a fantasmagoria dos acontecimentos e experiências primordiais da infância, lenta, mas firmemente decodificados por Freud e tendo como resultados (reelaborados sucessivamente, em várias etapas de seu pensamento) os denominados Complexo de Édipo, Complexo de Castração e Primazia do Falo; um texto que partiria de fragmentos clínicos de Freud, dos anos 1913, 1917 e 1920, para articular Falo e identificação; um cartel que se viu diante da necessidade de fazer um salto no tempo histórico das elaborações freudianas, buscando a letra desse conjunto complexo em trabalhos de 1923, 1924 e 1925; e uma retroação já de formulações lacanianas, no geral apenas implicitamente, mas explícitas em pelo menos duas passagens apenas citadas no texto: “A Significação do falo”, de 1958 e a escrita das fórmulas da sexuação no seminário 20, em lição de 1973; e finalmente, com todo esse  movimento de referências e de torções temporais, a luz relançada sobre a clínica de Freud, naqueles fragmentos.

 

Nossa primeira surpresa foi a de um feliz encontro com um texto de vinte anos, sua precisão e sua posição atemporal, como um trabalho real na extensão da psicanálise. A experiência analítica é uma experiência do tempo. Uma trajetória de um caminhar que não é progressivo nem regressivo no tempo.[1] Um texto sobre o tempo. Lembramos aqui dois filmes, em que as diabruras do tempo são colocadas em questão: “A Chegada” (2016), de Denis Villeneuve (aqui não vale a pena o spoiler, pois o que vale é assistir o filme) e “A Teoria de Tudo” (2015) sobre a vida de Stephen Hawking, físico britânico diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) por volta de seus 25 anos, e que fez, dos 2 anos de vida que lhe restavam, segundo o prognóstico médico dos anos 1960, mais de 50 anos  de trabalho teórico em torno da “ingênua” pergunta, “o que há antes do início do tempo?” E. Vidal também não deixa passar desapercebido um “antes do tempo”, uma franja de significância para um termo alemão transportado ao português, em seu comentário sobre a identificação mais primitiva, a partir da tradução que faz do capítulo VII do escrito de Freud “Psicologia das massas e análise do eu” (1921)  (Revista Letra Freudiana, n° 49).

 

Os fragmentos clínicos de Freud têm a força de um leitmotiv, como sabemos, de resto,  para todo o trabalho que se inscreva no discurso analítico. Articulação teoria/clínica: experiência da teoria/experiência da clínica. A experiência como incidência do não-saber. Não fosse a clínica – …trabalhamos com a hipótese da existência de apenas um inconsciente em análise, sendo dado um tratamento às formações do inconsciente –, o delírio de Lacan alcançaria a suprema glória do elogio e do testemunho da loucura. Ao contrário, sua obra dá mostras não de uma dissociação, por mais complexas que sejam suas construções, mas da boa associação dita

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[1] As frases em itálico, que aparecem aqui e ali, são passagens de outros textos publicados em variados volumes da TRANSFINITOS.

 

“livre”, permitida, exatamente, pela presença do organizador fálico e pela abertura ao ‘além do falo’, o não-todo em que ele inscreve o discurso analítico. Digamos que Lacan seja o nome da libido e da “possibilidade do pensar” frente ao real freudiano, de que dispomos hoje, como analistas. Dado que está excluída a possibilidade de fazermos a experiência-Freud pré-lacanianamente. Um bom encontro sempre é perpassado pelo amor, criando assim corpos eróticos. Pensamos que é dessa ordem a melhor possibilidade de encontro de psicanalistas com os escritos fundadores e com aqueles outros que não fazem obstáculo à transmissão da psicanálise.

 

Alguns trechos selecionados:

 

“A castração implica operações que, além do recalque, exigem do sujeito mais trabalho: dessexualização, identificação e sublimação, operações que supõem uma escrita.”

 

“A primazia do falo inscreve a passagem a uma dissimetria entre os sexos, não mais pela analogia ou pela réplica invertida. Essa dissimetria, sustentada pela lógica fálica, marca a antítese masculino/castrado, em que a dimensão do feminino não se coloca.”

 

“A substituição dos investimentos libidinais por identificações é, portanto, uma consequência da primazia do falo bem no ponto em que a barra da castração se fez valer. // No encontro com essa barra, uma saída é a identificação. Podemos supor que a identificação tampona esse corte, mas, como uma cicatriz, é neste mesmo ponto que a incidência do corte poderá operar na clínica, levando-se em conta que, onde há identificação, houve corte.”

 

“Frente ao universal do falo e ao Complexo de Castração, o que a clínica nos traz, seja na escrita sintomática ou na repetição não-sintomática, é que a inscrição fálica marca-se pela ausência do significante da mulher, presentificando a recorrência do que resta além do falo.”

 

Escritos são mesmo efêmeros, no ponto em que causam cada sujeito, no sentido de “fazer a experiência” daquele escrito.

 

Vale a pena ler este texto, da TRANSFINITOS 01.

 

 

 

OBS: [Aquela fantasmagoria seguiu produzindo outros avanços fundamentais na teoria psicanalítica, não só, por exemplo, em “Bate-se em um criança”, texto freudiano de 1919, mas também com todo o esforço de Lacan em torno da fantasia/fantasma: apesar da máxima redução, matemicamente, em uma “fórmula do fantasma” (seminário 5?), ele dedicará todo o seminário 14, nove anos mais tarde, à Lógica do fantasma]

 

 

 

                                                                                              Mauro Cordeiro Andrade

 

 


[1] As frases em itálico, que aparecem aqui e ali, são passagens de outros textos publicados em variados volumes da TRANSFINITOS