Eventos . JORNADA ALEPH

Juazeiro do Norte, 27/08/2020

Trauma e Letra

KRUEL, Sandra Seara. Trauma e Letra. In: Transfinitos – a experiência da psicanálise, Ano 4, nº.03, Belo Horizonte, Editora Autêntica, 2004.

A experiência da Psicanálise. Este é o título do terceiro número da Transfinitos, publicado em 2004. Edição esta que marca no tempo os dez anos de transmissão do Aleph e a recente passagem, na época, de instituição a Escola. No texto de Apresentação da Revista, deparei-me com a consideração do escrever como um ato. Isto para mim teve um efeito de convocação à escrita. Seguindo a leitura, destaco o comentário sobre a possibilidade da publicação funcionar como dispositivo de transmissão. A escrita do psicanalista, marcada pela lógica do a posteriori, é uma forma de atualizar a experiência e avançar o fazer Escola. Neste sentido, a aposta no publicar é apresentada como uma maneira de tornar público o “despertar” (sublinhado no texto como um dos nomes do real) de uma “sonolência” que pode abater a psicanálise. Diria, em função disso, que a escrita renova o laço de cada um com a Escola. Eis o que podemos ler no texto seguinte, Os Dez anos do Aleph: “…a Escola não cessa de não se inscrever. Sustenta a diferença, o não-todo, o um a um. Autoriza-se e nomeia-se.” (p.09).

Foi nesta Transfinitos nº 03, dedicada à experiência, que achei o texto intitulado Trauma e Letra de Sandra Seara Kruel. Sabemos que a questão do trauma faz apelo ao tema da Jornada anual do Aleph desse ano (2020): A sombra do trauma e a identificação.

A autora inicia seu texto, precisamente, a partir da experiência analítica. Apresenta-nos três fragmentos de casos clínicos de crianças em análise. Seja nos primeiros traçados no papel feitos por Felipe – uma criança que ainda não domina a escrita da língua -, sobre os atos do lobo mau, seja na repetição do brincar de Luiz – uma criança enlutada – com uma onça terrível e depois com o jogo para que a analista comesse um “chulezão” sujo, insistência que só cessa quando acontece na cena do brincar, ou ainda, nos pesadelos recorrentes de Antônio com a morte inevitável do pai do Rei Leão: vemos que o que é narrado é um acontecimento assustador e atroz posto no passado. Em suma, as narrativas infantis, enlaçadas com a escrita e o brincar, apresentam uma mesma lógica temática, a de um ato já ocorrido.

“No princípio era ato”, lembra-nos a autora a frase de Goethe, ressaltando a escrita de Totem e Tabu como uma construção mítica do assassinato do pai da horda, a partir da suposição freudiana de um fato realmente ocorrido. Da mesma forma, os três casos citados apontam para um trauma estrutural, não histórico, porém sem deixar de estar articulado à história particular do sujeito. Eis assim uma proposta de definição conceitual:

Trauma será, aqui, definido como um encontro com o ponto de despreparo da estrutura simbólica diante do real. O encontro com o furo no simbólico é o ponto de partida para os remanejamentos estruturais. Sem o trauma, da forma como foi definido aqui, a estrutura não se movimenta (Kruel, 2004,p.114).

Será no tempo do “só depois” que poderá ser tratado esse encontro com o “furo na linguagem”. O que há de comum entre o mito, as narrativas e os contos infantis é essa marca traumática. A autora nos lembra o uso que Lacan faz da matemática de Frege para pensar a série significante. Da mesma forma que na série numérica o número um pressupõe o zero, haveria na série significante o reenvio constante da falta original, o trauma. Em uma análise, percorrer a compulsão à repetição é uma forma de construir um saber sobre o trauma, enquanto encontro com o real.

Por fim, a autora nos atenta para a função da letra. Enquanto o significante possui efeito de sujeito, a letra remete à escrita: “Na escrita não está pressuposto que ela será lida (por A), e ela se compõe letra a letra numa soletração que não impõe efeitos de significação” (Kruel, 2004, p.115). O fragmento clínico da análise de Filipe indica que seus traçados equidistantes no papel e a série de letras “o” (diz ele que lobo mau se escreve com um “o” bem feio) apresentam muito mais uma função de “fixão” do que propriamente de ficção. A letra funciona, portanto, de modo equivalente à variável matemática, ou seja, pode assumir valores diferentes e também fixar uma fórmula. “O trauma (…) está fixado numa letra que permanece em instância, en souffrance” (Kruel, 2004, p.116). O traçado no papel diz do sofrimento, um ciframento peculiar, não significante, permitindo o desdobramento discursivo.

 

Raul Max Lucas da Costa,
Juazeiro do Norte, 24 de agosto de 2020