... outras palavras

O mágico agulheiro – Maria Augusta Friche


Fotografia: Flávia Coutinho Campos
 

O mágico agulheiro

Como são surpreendentes e mágicas as coincidências!

Ao saber de meu novo ofício – coser máscaras – um amigo sugeriu que eu as costurasse à mão. “É muito zen”, ele observou. Lembrei-me da música de Gil, A linha e o linho, “…a agulha do real nas mãos da fantasia…”, e, apesar de estar sendo um ofício muito especial, para o momento atual, a produção é mais importante do que a fantasia. Não são máscaras de carnaval, embora possamos deixá-las mais charmosas e/ou divertidas.
Nesse tempo pelo qual passamos, o real é bruto, é rocha pontiaguda e espeta; não há agulha e linha que o atravesse. O real é sempre assim, então o bordejemos com coragem!

Num quarto vazio, uma máquina de costura adormecida e coberta por alguma poeira do tempo estava, há muito, em um canto do cômodo. As máscaras exigidas para proteção foram a saída para fazer algo diferente de escutar notícias e ler, ler e ler. Escutar, escutar e escutar. A minha angústia surgiu ao me sentir impotente e constatar que eu não podia ajudar as pessoas, significativamente, nesta pandemia. Que horror! Essa angústia me sinalizou que algo deveria ser feito. A máquina foi transportada para a varanda da casa. Ela se alegrou, tenho certeza! Junto a ela, resgatei roupas há muito guardadas na escuridão do armário. Sei que elas ficaram mais felizes ao serem cortadas e verem a luz do sol do que confinadas no escuro de um cubículo. Sabemos, agora, o que é confinamento!

Duas semanas após o resgate, a máquina apresentou alguns sintomas de perturbação: pontos mal feitos, travamento da engrenagem. Culpei a linha comprada em um site, nesses tempos de comércio fechado. Fui acordada na madrugada com outra conclusão e algumas decisões. Dentre elas, a de limpar e cuidar da máquina como ela merecia. Depois desse ritual, enfim, reapareceu a beleza negra daquele objeto. Ao mostrar sua elegância, o alfineteiro colocado como um colar, em seu dorso, revelou-se inadequado.
Com certeza, ele foi feito com muito zelo pela proprietária anterior da máquina, mas, pelo uso e pelo tempo, ele se desgastara e já não combinava mais com a brilhante negritude da máquina.

Mãos à obra, me propus a fazer um novo colar. Com pesar, retirei o antigo, reportando-me no tempo e pensando como foi cuidadosa a antiga dona da máquina. E como pude chegar a essa conclusão? Claro, pela costura no fechamento do colar, ou seja, delicadamente cosido à mão. Ohhh!!! As máquinas de costura são caprichosas! A máquina, para se enfeitar, não pode fazer o seu próprio adorno. Mais um paradoxo se apresentava ali, naquela manhã: a máquina se alegra de não fazer, ela mesma, o seu adorno.
É a sua proprietária que deve presenteá-la e orná-la! Ela obedece e faz coisas magníficas, mas, para si, ela mostra sua incompletude, sedutoramente.

Surpresa! No ateliê improvisado – onde se misturam roupas a serem transformadas em máscaras, linhas, tesouras, telefone, som –, as agulhas de mão haviam desaparecido. Na véspera elas estavam ali sobre a mesa! Resolveram brincar como se fossem duendes ou, mais provavelmente, caídas ao chão, foram recolhidas por uma vassoura pouco amável e lançadas à lixeira.

Eu estava com o tecido-colar já cortado e sem recursos para colocá-lo ao colo da minha mais recente companheira de confinamento. Na pressa, pensei em usar uma cola, mas a história já havia me tomado de tal maneira, que precisaria coser à mão, no modo zen, e presentear minha amiga.

Impulsionada, talvez, por memórias intraduzíveis, fui buscar um (des) organizador de linhas e afins, no quarto vazio. Poderia encontrar uma agulha espetada em um retrós ou num canto dos pequenos compartimentos. É lindo como as agulhas brincam de esconde-esconde e descansam em frestas e cantos dos organizadores, ou mesmo da casa. Depois de minuciosa busca, nada!

Enquanto eu olhava para o nada, na lata de objetos e caixas de acessórios de costura de minha mãe, um mini coração almofadado me chamou a atenção. Era um coração agulheiro-alfineteiro, bordado em ponto de cruz, certamente feito por ela. Era o da minha mãe! Fui, novamente, arrastada ao passado, por doces lembranças. Em outro impulso, quis agarrar, acariciar aquele coração. Ele se ajustou ao M da palma de minha mão e o apertei como se desse um grande abraço em minha mãe.

Ui!!!! Uma agulha adormecida acordou e me deu um sinal de que poderia saltar e me espetar. Sim, tal como num conto de fadas às avessas, dali saía uma agulha delgada, pequena e imponente. Provavelmente usada para bordado de linha de meada.

Momento mágico, posso dizer, na tentativa de agarrar-me ao passado, saltou do coração justo o objeto que eu buscava, sem sucesso, até então. Tal como no conto de Poe – A carta roubada –, aquele seria o local mais adequado e óbvio a se procurar, mas, como não estava visível, isso não me ocorreria. Deveria ter me lembrado da leitura da adolescência, de Exupéry: “O essencial é invisível aos olhos”. Como toque de mágica, do coração de minha mãe vinha o que faltava para bordejar os obstáculos da vida. No caso,
um pequeno obstáculo, mas posso estendê-lo a outras situações.

Olhos marejados ao sentir o passado, o presente e o futuro condensados naquele macio coração. Com carinho, apalpei-o e uma e mais uma agulha se despertaram, preguiçosamente, de seu prolongado repouso. Essas não saíram tão facilmente como a primeira. Mais emoção: ali estavam, na palma da mão direita, as duas seguintes igualmente delgadas, pequenas e imponentes como a primeira.

Três agulhas, três Marias, três amores dentro de um coração. Nesse coração de mãe cabem infinitas agulhas. Sempre o coração da dona desse agulheiro-coração almofadado esteve aberto a milhares de pessoas.

A vocês, as duas Marias, filhas da grande Maria-Mariinha, dedico esse escrito.
Um beijo no coração, outra Maria

Nota: dedico, também, este escrito a todas as mulheres – Marias – da minha família.
Sintam-se homenageadas todas as minhas amigas e todas as mulheres que leram esse breve conto.
Enfim, a todo leitor que me acompanhou nesse momento mágico.
À Belinha, que me ajudou no cuidado com as palavras, um beijo carinhoso.

Maria Augusta Friche – psicanalista, membro do Aleph – Escola de Psicanálise.
Em quarentena, no dia 02/05/2020