Achados da Biblioteca

Um tombo: a vida no Real

Regina Cardoso

Uma bailarina, forte, graciosa, elegante. ambiciosamente sem excessos, uma bailarina traduz, em movimentos de beleza rara, cada linha da música e, no momento exato em que o sustenido se eleva em um fugaz semitom, ela faz uma queda. Perfeita, harmoniosa. O diretor invade a cena. Seu grito vem de algum lugar, lugar além palco. “Não se ensaia um tombo! Não se sabe dele!” (Relato de um documentário: “Mr. Gaga: O desejo pela dança”).

Real, experiência que se repete, que volta sempre ao mesmo lugar, abre e fecha ao infinito, sem se tornar, até em virtude disso, dizível, apreensível. Real, sempre sem encontro marcado, sem o alívio de um aviso prévio, ainda que precário, é do nada o seu lugar, é da errância o seu trilhar, é da impossibilidade a letra de sua estrutura. Não se esconde, não se revela. Não se ensaia.
Ex-sistindo ao sentido, não se apoia em atributos, não se constitui em juízo. E assim, não tendo a insistência de um significante, nem a imagem a ser capturada, esse registro, o Real, embora “não cesse de não se escrever”, toca a estrutura da linguagem em sua opacidade, toca o real do corpo, o real do sexo. A relação sexual não se faz escrever. É a impossibilidade da estrutura em toda sua irredutibilidade. Insolúvel, o Real não se escreve, mas se impõe ser lido. Quando estamos falando de ‘há do Real’, que não se leia ponto de existência, que não se tente aproximá-lo do possível e, sim, que ali se está a operar seu limite. Operação de lugar, lugar-função, que opera e é operado na e pela ex-sistência.

Na XXI Jornada – “O Real na experiência psicanalítica” -,vimos que a clínica da Psicanálise vai além da supressão do sintoma, do aplacamento do gozo, da travessia do fantasma. A escritura da estrutura de cada sujeito exige ser lida de modo a situar as diferenças, seus traços. No entrecruzamento, o ‘em cima/embaixo’ de cada registro, o nó ex-siste à consistência, faz contorno ao buraco, buraco do nada fundamental, buraco do não-sabido, buraco-corpo, buraco-linguagem. Com o nó de quatro, outros anodamentos aí estão, outros buracos são atravessados. É um trabalho de análise que, indo aos campos de ex-sistência do nó, cerne o ‘gozo do Outro’, ‘gozo fálico’, ‘sentido’, escreve outras consistências/ex-sistências, e chega ao buraco do ‘objeto a’. O nó escrituraliza o sujeito.

E, outras vezes, vezes muitas, o Real chega e pega o sujeito no abandono, sem histórias, no susto. Desprendido de sua borda, um filete, como que uma cunha, campo de ex-sistência, imiscui-se no Imaginário. Eis que, entre a vida e o corpo, a angústia, um dos Nomes do Pai, emerge. Segue seu trilhar, contornando o Real. Faz ex-sistir o ‘Gozo do Outro’ e confirma a ex-sistência do ‘Sentido’. Ao se acercar do Simbólico, cai no buraco da ‘Morte’, morte da coisa. Do lado exterior do nó, no buraco real, na ex-sistência do Real, o ‘falo’, gozo já inscrito no significante, gozo sexual, rastro do sexual forcluído.

Um percurso: vida, sexualidade, morte. Percurso da angústia.
Seria aí que a nominação real poderia ser trabalhada, quando, pela intervenção de um quarto termo, novos enodamentos seriam escritos? Seria estabelecer uma escrita que levaria a uma leitura onde o Real faz limite, onde se faz do Real escrita? Aquilo que estaria dando suporte ao Real e um enlaçamento estável entre Imaginário, Simbólico, Real, seria a nominação, a que faz buraco, entrelaça?

Escutemos Lacan:
… “e que, se há alguma coisa que deveria nos impressionar, é que se tenha levado tanto tempo para perceber que alguma coisa no Real – e não pouca coisa, a própria vida – se estrutura por um nó.” (A Terceira – JL – 1974)

Livros Consultados:
– Cadernos Sigmund Freud – El Psicoanalisis en los Limites – Escuela Freudiana de Buenos Aires – 1997: Breve guia para cadenas borromeas de cuatro hilos – Carlos Ruiz
– Jacques Lacan – O Seminário – O sinthome – Livro 2a3 – RJ – Zahar Ed. 2007