... outras palavras

Da delicadeza perdida recuperando-se ou a vida presta

Lufadas de vento de Ainda estamos aqui arejam refrescam varrem. Busco em meu coração, vagabundo sempre, captar o momento único. Captar, agarrar, fixar na memória para que perdure: as pessoas torcendo muito para um Oscar que sabemos que é da indústria, mas mesmo assim. Sabemos e insistimos “olha aqui! Olha isso! Isso é raro e bom” e é assim que o mundo de vez em quando se salva. Quando somos pujantes, alegres, guerreiros e guerreiras alegres. Não é tola a alegria, é alegria de luta, de vitalidade, gai savoir. Saber da vida com ciência e arte, da vida contra a morte – não a morte morrida natural, mas a morte precoce, forjada, imposta por ditaduras, por exemplo. Morte em vida, sombria, como querem os assassinos de almas e desejos. Dos que têm medo da vida e imprimem à vida medo e terror e desconsolo. Vida que mata as matas, as águas, os bichos, o planeta. Que mata negros, índios e pobres e mulheres. Que condena massas humanas à tristeza. “Sorriam sim”, diz a mãe que resiste aos militares da morte de Rubens Paiva. Saí do cinema e precisei ir ao banheiro lavar o rosto, muitas camadas acumuladas e revolvidas ali, saí da sala escura e a sensação foi de gratidão. Gratidão por alguém fazer um filme como este e um livro que lhe deu origem e as entrevistas que o cercam e o compõem. Um filme como este nesta hora brasileira. Nesta quadra da história em que vencemos as eleições contra um fascismo sombrio, repito, sombrio, que nos desgovernou em mentiras e crimes e dor. Que nos submeteu a grosserias de vidas rebaixadas, ultrajantes, mentirosas e torpes. Nesta quadra em que, vencidas as nossas eleições os fascismos se arreganham e mostram os dentes na aldeia global. A expressão soa antiga, e é. Mas é disso também que esta escrita quer falar. Vencidas as eleições, dizia, assistimos cotidianamente a armações ferozes das forças reacionárias, soa antigo, de novo! Dizia, saí do cinema, lá atrás – já faz um tempo entre ver o filme, assistir às entrevistas dos artistas e do diretor e do Marcelo Rubens Paiva e ler textos sobre e de me deliciar com a Fernanda Torres pensando e pensante em alegria sem se desviar em narcisismo algum – saí do cinema em estado de gratidão. Numa dessas, a Fernanda situou as raízes do filme no tempo da Bossa Nova, do Oscar Niemayer, da Lina Bo Bardi, de uma Brasília nascente e promissora, do presidente JK. Do futebol arte, eu lembro aqui. Foi esse tempo aí que a ditadura interrompeu: o tempo da delicadeza. A delicadeza perdida. Há a música do Chico Buarque e há um especial dele que nos falam do tempo da delicadeza perdida. Era o Brasil “bossa nova”, efervescência cultural e sobretudo, um tempo em que havia um futuro possível, um horizonte. Não se trata de patriotismo burro, não! Nada de xenofobia, um Brasil de braços abertos ao mundo, mas com suas marcas próprias, trazendo a afirmação de sua língua de afetos e artes. Quantas saudades! E aí veio a explosão do carnaval, dos carnavais de tantos brasis celebrando o tal do Oscar que, ninguém aqui é bobo, já sabemos que é da indústria e, ainda assim, celebramos. Por que tanta alegria, torcida e celebração? Porque Fernandinha e Selton e Valtinho (íntimos!) e Marcelo e suas irmãs saíram falando em alto e bom som “é político!” – político quer dizer que é da pólis e para a pólis, vale dizer, é para todos, é para qualquer um que se aproprie e diga junto, bora mudar o rumo das coisas, bora barrar de novo e de novo a ameaça do fascismo em sua corrente de morte e degradação da vida. É assim, para não esquecer, que se celebra a memória de uma mãe guerreira que mesmo na dor, qual uma heroína grega, busca a alegria para que os filhos tenham futuro. E as pessoas responderam amando o filme e enchendo os cinemas aqui e no mundo, e então saímos cantando, parodiando, rindo alto nas ruas de todas as cidades e explodindo com o sonho de um novo horizonte, um para a cultura e a arte em gaio saber. Saímos, no meu caso é força de expressão, mas me fantasiei, sim, com um boton no qual se lê a vida presta.

elisa arreguy-BH-Carnaval de 2025